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A Fala: uma dança interior, Sonia Ruella
A fala não pode nem deve ser considerada simplesmente
uma atividade de comunicação relacionada a um modelo
técnico de emissor e receptor no qual há apenas a troca
de informação entre ambos.
A fala é uma atividade essencialmente humana e
de grande complexidade.
Mesmo antes de emitir uma
simples frase, a criança pequena precisa aprender a
coordenar a musculatura que produz os sons e a fala.
Esse processo faz parte de um mesmo momento do
desenvolvimento da criança em que ela luta para
conquistar o domínio corporal necessário e que lhe dará
condições para andar, falar e pensar.
Essas três
aquisições, fundamentais para o desenvolvimento do
homem, são frutos da atividade desse “homemmovimento”.
Essa atividade não se resume a apenas executar
movimentos musculares. Como um escultor que lapida e
transforma a matéria bruta em obra de arte, o homem
modifica o ar gerando formas plásticas exclusivas que,
combinadas entre si, geram a fala.
Para isso não basta enviar o ar expirado para a
laringe e produzir sons diferentes. Em cada fonema
emitido há uma “intenção humana” que modifica o ar
expirado e lhe dá uma determinada forma plástica que
soa diferentemente. Assim, podemos dizer que ao falar
estamos produzindo esculturas em fluência.
Comprovadamente pela ciência, descobriu-se que
as formas dos sons da fala produzem concomitantemente
determinados movimentos delicados no corpo do
falante, movimentos não perceptíveis mas que afetam
toda sua musculatura corporal, da cabeça aos pés.
Constatou-se também que essas formas fonêmicas
produzem os mesmos delicados movimentos no ouvinte,
da cabeça aos pés, com uma defasagem de 40 ou 50
milissegundos.
Pode-se dizer
que o ser humano inteiro
ouve.
Essa é apenas a primeira instância de se “ouvir a
fala”. Posteriormente, o movimento supera a condição
de atividade muscular e vai para o sistema rítmico do
coração e do pulmão. Podemos observar que aí se
produzem tensões e relaxamentos, aceleração e
desaceleração dos ritmos naturais...
O movimento
corporal transforma-se em movimento anímico e deixa
de ser inconsciente para ser semiconsciente e atingir a
região dos sentimentos oníricos.
Num outro passo, o movimento da fala alcança o
polo neurossensorial da cabeça, onde se transforma em
movimento espiritual, aparecendo à consciência sob
forma de conceito ou representação.
Como pudemos ver, a atividade da fala não tem
como ponto de apoio a cabeça e sim o movimento
inconsciente do corpo. A criança pequenina não está
apenas “ouvindo” com os ouvidos a fala do adulto ao
seu redor para depois tentar imitá-lo. Desde o início
ela participa com seu corpo todo, bailando e
acompanhando a corrente verbal do adulto. Nesse
momento, ela imita os movimentos e não os sons.
Ao
aprender a formar os sons a criança trabalha também a
formação do cérebro, que, com isso, vai amadurecendo.
É de fundamental importância para o adulto saber
de sua responsabilidade quando fala com uma criança,
pois sua fala atua sobre a corporalidade dela,
influenciando as possibilidades de desenvolvimento
anímico e espiritual.
Sônia Ruella
Fonoaudióloga e educadora do Alecrim Dourado
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