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Aprender a ser, Sonia Ruella

Todo educador, ao educar, deve sempre ter em mente um fato fundamental: de que a criança não deve ser educada apenas para aprender mas, também , para, ao mesmo tempo, crescer e completar sua maturação orgânica de forma equilibrada. O educador deve ajudála a desempenhar essas duas funções.

Considerando-se que o desenvolvimento da criança ocorre em fases com características diferenciadas, mas bem definidas, podemos destacar algumas delas. Durante os primeiros sete anos de vida, a criança vai completando (metamorfoseando) os seus órgãos vitais até que atinjam a sua forma definitiva.

Nesta fase, a criança aprende por imitação, não só do mundo exterior (gestos de todos os dias, atividades básicas de higiene, alimentação, vestuário, caminhar, falar, etc) mas também do mundo interior (imitação da qualidade dos estados de alma do adulto com quem convive e com quem aprende a pensar). Todo o meio que envolve a criança está em comunicação com a alma infantil, que se entrega plena de confiança.

Todas as vivências - e as suas qualidades - penetram na criança atuando sobre o processo de metamorfose dos seus órgãos. Muitas vezes, determinadas emoções vividas nesse período manifestamse mais tarde sob a forma de doenças crônicas. Se, porém, o ambiente em que cresceu foi saudável, então, é provável que venha a dispor de uma constituição orgânica sã.

É evidente que muitos outros fatores podem influenciar ou mesmo determinar estados de debilidade física mas isso não invalida a necessidade de se proporcionar à criança até aos sete anos uma atmosfera familiar e social (jardim de infância) que lhe permita completar a formação saudável dos seus órgãos, base de toda a sua vida. Para isso é necessário que todos os sentidos sejam estimulados naturalmente, pelo que se deve cuidar das qualidades do som, da cor, dos materiais, da alimentação, do calor.

Este cuidado dar-lhe-á o alicerce para o futuro fortalecendo-lhe a vontade. O dia a dia de um Jardim de infância, reproduzindo tanto quanto possível o de uma grande família em sua casa com o seu ritmo natural de trabalhar e brincar, com as imagens trazidas pelos contos de fadas, com elementos da natureza, constitui um ambiente propício ao desenvolvimento feliz e saudável da criança.

Quando é atingida a maturidade para aprender a ler e escrever a maioria das forças vitais que se empenhavam no desenvolvimento de seu organismo são liberadas e ficam disponíveis para essas aquisições e para outras sistematizadas. A imitação, embora ainda atuante vai deixando de ser relevante e o que se torna agora importante é o desejo de admirar, de venerar alguém que lhe revele o mundo exterior.

A criança já não se entrega incondicionalmente ao mundo como antes. Agora, ela se recolhe freqüentemente em seu mundo interior e precisa de um mediador em quem possa confiar, como antes confiou no meio que a envolvia. Esse mediador para quem a criança eleva todo o seu ser interior num ato de veneração é o professor - aquele que lhe traz a beleza do mundo até ela.

Cabe ao professor fazer despertar no aluno o sentido artístico, praticando-o na globalidade das aprendizagens necessárias. E, uma vez mais, não se trata aqui apenas de atividades exteriores: o pintar, o modelar, o tocar música preenchem-se de uma atitude interior de olhar, ouvir, ver, escutar - de sentir.

É nesta fase que se desenvolve o SENTIR, através da beleza do som da palavra e da frase; da beleza das letras e da beleza na verdade dos números; da beleza do inseto, da árvore, da chuva e da areia. Por amor ao professor, pelo que de belo ele lhe trás do mundo exterior, o aluno esforça-se em fazer bem tudo o que lhe é proposto. Uma vez mais, é aqui necessário criar um ambiente - a escola - que não contradiga a sensibilidade que desperta e se desenvolve.

Os contos, as lendas e fábulas, trechos do Antigo Testamento, mitos ou sagas de outros povos e biografias significativas, dão-lhe a imagem do Homem e do seu percurso, por entre o bem e o mal. No 3º setênio o raciocínio, que já se vinha desenvolvendo, ganha novas dimensões

O jovem dispõe agora das forças do PENSAR para penetrar a verdade do mundo com as suas capacidades intelectuais e manuais: ciências naturais e sociais, filosofia, artes, tecnologias. O jovem anseia por intervir nesse mundo real e é isso que a escola deve propiciar-lhe.

Como vimos, a Educação deve respeitar e favorecer para que essas três forças naturais do ser humano: querer, sentir e pensar se desenvolvam equilibradamente nos três primeiros setênios da vida do homem. Só dessa forma poderemos garantir uma vida saudável e feliz para o indivíduo que queremos educar.

Sônia Ruella
Fonoaudióloga e educadora do Alecrim Dourado