Uma prática pedagógica que faz a diferença...
O que há de mais interessante, a meu ver, em uma proposta pedagógica, é quando o educador pode realizar uma metodologia de ensino que acompanhe o desenvolvimento natural do aluno como Ser, que na sua humanidade não se separa do mundo. Ao contrário, a proposta pedagógica inter- relaciona-o com o mundo, com o Cosmos e inter-relaciona os conteúdos de aprendizagem com a totalidade da vida, fazendo com que educador e educando evoquem a imaginação e a criatividade para reunir o objetivo e o subjetivo dentro de uma dimensão simbólica (e, portanto, humana) utilizando-se de técnicas expressivas (modelagem, pintura, música, teatro, dança, trabalhos manuais em geral, culinária etc.) para vivenciar o aprendizado.
Quem vivencia não decora. Quem estuda sem vivenciar absorve os conteúdos ensinados somente no nível racional e, portanto, corre o risco de esquecer. O aprender precisa ser vivenciado e isto significa que o conteúdo pedagógico deve primeiro ser apreendido pelo aluno, integrar-se ao ser, passando a fazer parte dele. O indivíduo, transformado, atua no mundo à partir de elaborações próprias, transformando-o também.
O que se constata na maioria das práticas pedagógicas é que o aprendizado se dá apenas a nível racional e superficial.
Os conteúdos, para se tornarem profundos e intrínsecos ao ser, devem passar pelos níveis do pensar, sentir e querer do aluno. Por isso, muitas vezes afirmo que o aluno do Alecrim Dourado é diferente dos demais. Nesse âmbito, posso afirmar que sim. Diferencia-se porque vivencia o aprendizado racional e emocionalmente, como deve ser feito com todas as experiências que nos ensinam os segredos da vida. O que separa a erudição da sabedoria é a vivência e a compreensão da função do saber no processo existencial.
Quando reconhecemos isso, todo o aprender fica mais fácil, mais prazeroso. A criança pequena faz isso com muito mais facilidade, pois está mais aberta ao mundo. Ela se vincula afetivamente de uma maneira forte ao adulto que a educa, e que será seu modelo. Ela demonstra um grande interesse pelo mundo a sua volta e, por ser extremamente sensitiva e receptiva, apreende esse mundo com muita atividade física. Toda essa atenção e atividade traz a criança para a corporalidade, faz com que ela se desenvolva neurológica e psiquicamente, tornando-a um ser único. Ou seja, o modelo vivencial de formação de identidade com base nas relações emocionais no início da vida pode ser visto como um efetivo e funcional modelo de aprendizagem pelo resto da vida, embora saibamos que a imitação é um recurso mais utilizado no primeiro setênio (0 a 7 anos).
A transmissão do saber deve ser um ato tão criativo, entusiástico e emocionante quanto a vida, porque insere os conteúdos no processo existencial. O aprender tem significado, pois os conteúdos estão associados à vida e, assim, a prática pedagógica também ganha vida. O professor torna-se um ser de referência para o educando, alguém que ele respeita e venera, pois é um facilitador que lhe propicia inúmeras possibilidades de aprender e crescer de forma bela e verdadeira.
Evidentemente, professor e classe não atuam sozinhos nesse processo. Nós, do Alecrim Dourado, compreendemos que o sucesso do projeto pedagógico não depende apenas do conteúdo curricular ou da atuação isolada de cada educador. A interdisciplinaridade se faz presente na concepção filosófica da escola, que busca, constantemente, estabelecer fortes laços de relação entre sujeitos, sejam eles professores, alunos, pais, familiares e funcionários. Relação que, além de criar vínculos afetivos, estabelece comprometimento mútuo, que educa e forma à medida que interage.
Assim, operam-se transformações em cada um, na escola e na comunidade escolar. Para nós, do Alecrim Dourado, a atitude interdisciplinar está contida nas pessoas que pensam o projeto educativo. Sabemos que o projeto educativo não é um espaço terapêutico, mas, inevitavelmente ele pode e deve se tornar um espaço de transformação que favoreça o processo de individualização dos seres humanos envolvidos. Entenda-se por individualização tornar-se único, lembrando que não é um processo que tem um ponto final e/ou perfeito. É necessário considerar que aluno e/ou educadores não se encontram formados, mas em processo constante de formação.
Pensando no projeto pedagógico dessa maneira e realizando uma prática pedagógica plena de significado, unindo o subjetivo ao objetivo, integrando o pensar, o sentir e o querer, certamente teremos e seremos indivíduos mais inteiros, mais humanos e mais felizes. A escola poderá ser um espaço de TRANS-FORMA-AÇÕES de seres humanos mais completos, integrados e livres.
Sônia Ruella
Fonoaudióloga e Diretora do Alecrim Dourado